“Ratanabá”: Geógrafo Emite Parecer Técnico Sobre Misteriosas Linhas Na Amazônia

Afinal, as curiosas linhas de Apiacás, nomeadas “Ratanabá”, são naturais ou resultado de ação humana?

Procuramos o Dakila Pesquisas, que nos forneceu as imagens obtidas através da tecnologia LiDAR de uma área isolada da floresta amazônica pesquisada por eles, em Apiacás, MT, assim como o estudo preliminar escrito pelo geógrafo e arqueólogo Saulo Ivan Nery.

As narrativas sobre Apiacás têm causado muita polêmica e agitaram a internet brasileira nos últimos meses. A área chamada de “Ratanabá” foi matéria de destaque no portal da Globo, BBC e outros. No YouTube, vários canais de grande destaque na plataforma criaram vídeos sobre “Ratanabá”.

RESULTADO DA PESQUISA COM TECNOLOGIA LiDAR

O parecer técnico de 20 páginas demonstra uma análise geomorfológica da região e dos dados alcançados pela detecção LiDAR.

No documento, Nery conclui que as linhas foram produzidas por ação humana. O autor defende em sua tese que os riscos no solo não são falhas geológicas porque “as falhas geológicas mais próximas, pelos estudos que temos, é o Graben do Cachimbo, localizado há mais de cem quilômetros em linha reta da área de estudo”.

Imagem obtida pelo LiDAR.

Diz, também, que existem grandes diferenças entre os padrões de drenagens naturais do terreno local (dendrítico) e as linhas que formam o misterioso “xadrez”, portanto, os traçados não seriam resultados de ação das águas.

O geógrafo complementa a análise afirmando que “A presença de traços retilíneos que se diferenciam dos padrões erosivos naturais da região, indica um primeiro fato sobre a origem antrópica das presentes estruturas”. Nery, ainda argumenta que as novas descobertas de traços urbanos feitas na região da Amazônia fortalecem a hipótese de origem antrópica.

Tendo em vista que a região é pouco estudada e os resultados demonstrados pelo método LIDAR indicam a presença de alterações no terreno, não temos dúvida sobre a origem antrópica dessa estrutura em Xadrez, concluiu Nery.

Leia aqui análise completa.

Imagem obtida pelo LiDAR

COMO A PESQUISA FOI REALIZADA?

Com a autorização do Ministério da Defesa, a ‘Think Tank’ Dakila Pesquisas contratou a empresa Fototerra para realizar o mapeamento das misteriosas formações de Apiacás, MT. Entre os dias 31 de maio e 19 de junho de 2022, uma aeronave estruturada com a tecnologia LIDAR foi utilizada para captar imagens a laser da região.

Segundo o site da Fototerra, eles utilizam tecnologia alemã e canadense de ponta. A empresa atua com a tecnologia LiDAR desde 2005.

O custo total aproximado da pesquisa foi de um milhão e cem mil reais.

Imagem obtida pelo Dakila durante sobrevoo.

DESCOBERTAS RECENTES NA AMAZÔNIA

Pesquisadores alemães mostraram que na região de Llanos de Mojos, na Bolívia, havia um tipo de urbanismo com dezenas de assentamentos apresentando arquitetura monumental, conectados por estradas. Essa descoberta contraria a visão, defendida por muito tempo na arqueologia, de que a Amazônia não fora ocupada por sociedades complexas no passado.

A Tecnologia LiDAR revelou a existência de uma rede de assentamentos com arquitetura monumental. O achado inédito sugere que o oeste da região amazônica, na Bolívia, antes da chegada dos colonizadores, tinha uma densidade demográfica muito maior do que se pensava.

Imagem LiDAR da pesquisa feita na Bolívia.

Em 2018, arqueólogos da Universidade de Exeter, com a mesma tecnologia LiDAR, encontraram evidências de que civilizações com até 1 milhão de habitantes, divididas em diferentes comunidades, viviam na bacia do Alto Tapajós, noroeste do Mato Grosso.

Em 2008, uma pesquisa dirigida pela arqueóloga Denise Pahl Schaan descobriu e mapeou com cientistas finlandeses geoglifos de até 350 metros construídos há 13 mil anos na Amazônia .

POLÊMICAS

O portal G1 publicou uma matéria onde o professor de ecologia da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), Ben Hur Marimon, diz que uma pesquisa com LiDAR havia sido realizada em Apiacás, MT. Contudo, o canal do YouTube, Além da Nuvem, comprovou que a imagem publicada na matéria como sendo de uma autêntica pesquisa LiDAR, era falsa. Também não foi encontrada qualquer publicação de pesquisa com essa tecnologia em Apiacás, sendo, então, uma autêntica ‘fake news’.

Em outra matéria, o mesmo G1 entrevistou a arqueóloga e fundadora do Museu de História Natural de Mato Grosso, Suzana Hirooka. Ela afirmou que os cortes profundos em Apiacás poderiam ser “valas de defesa indígena”. Nessa publicação, o estudante de arqueologia, Kamarifé Raôry Wauráa, chamou as linhas de “falha geológica” e, em simultâneo, reforçou a narrativa de Hirroka.

Em entrevista à BBC, o arqueólogo Eduardo Neves disse que esse local já era conhecido por “eles” (os arqueólogos) há muito tempo, que “suspeitava que as formações eram naturais, de calcário”, mas que havia a possibilidade de ser resultado de ação humana de origem indígena. Segundo o IBGE, a litologia da área é composta de arenito.

Neves também afirmou que se fosse de autoria humana, não teria mais que dois mil e quinhentos anos, sendo uma verdadeira datação à priori. Também declarou que seriam racistas aqueles em desacordo com a hipótese indígena dele. O vídeo no YouTube, onde ele efetua essas alegações, já tem mais de quinhentas mil visualizações.

O blog The Intercept e o site do PT (Partido dos Trabalhadores) publicaram uma teoria da conspiração onde relacionam “Ratanabá” e o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, a uma trama maquiavélica supostamente planejada pela “extrema-direita bolsonarista”.

Perguntamos ao Dakila se eles receberam alguma solicitação de acesso às imagens do LiDAR ou qualquer contato da imprensa e acadêmicos. Eles afirmaram que não foram procurados.

A NARRATIVA DO DAKILA SOBRE RATANABÁ

Segundo a tese do Dakila Pesquisas, “Ratanabá” seria um império mundial extremamente antigo com sede na Amazônia. O povo que teria estabelecido essa supremacia se chamava “murils”.

Para eles, seriam obras dos murils as estradas do Peabiru, túneis subterrâneos, fortes com formato de estrela e outras construções megalíticas encontradas em todo o mundo.

A palavra “Ratanabá” teria sua origem no idioma irdin dos murils. “Ratan”, significaria imperadores, império, império dominante, e, “kinaba”, mundo, mundos ou “os que transitam entre os mundos”. Traduzindo, “Ratanabá” quer dizer “dos impérios para o mundo” ou “capital do mundo”.

De acordo com Rafael Hungria, “a região de Apiacás, MT, seria apenas a primeira parte a ser revelada, existem muitos outros pontos em seguida”.

PESQUISA EM ESTÁGIO INICIAL

Apesar do surpreendente empreendimento privado de pesquisa arqueológica, ainda estamos muito longe de uma resposta completa sobre Apiacás.

Nery, em seu relatório, disse, “De todo modo, vale salientar que somente será possível a comprovação definitiva, a partir de uma campanha de pesquisa de campo que identifique vestígios materiais in loco, capazes de sustentar a hipótese da existência de Ratanabá”.

A pesquisa com tecnologia LiDAR evidenciou ação humana na região, contudo, mais esforços serão necessários para comprovar a narrativa de “Ratanabá”. O estudo está em fase inicial, no estágio de localização de sítio arqueológico. A arqueologia é a construção de narrativas sobre outros tempos a partir dos vestígios encontrados no subsolo, então é indispensável a pesquisa de campo para coletar essas evidências.

Garibalde Rodrigues, pesquisador do Dakila, disse que no momento “Dakila Pesquisa” está seguindo os trâmites legais. Todos os órgãos competentes foram notificados por ofício sobre o possível sítio arqueológico e uma pesquisa de campo está sendo planejada.


Referências

Parecer_tecnico – Ratanabá

super.abril.com.br/historia/pesquisa-revela-civilizacoes-antigas-com-ate-1-milhao-de-habitantes-na-amazonia/

revistapesquisa.fapesp.br/amazonia-perdida-e-achada/

g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2022/06/30/ratanaba-linhas-podem-ser-valas-de-defesas-indigenas-e-nao-tem-a-ver-com-cidades-perdidas-diz-arqueologa.ghtml

g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2022/06/18/especialistas-explicam-por-que-cidade-secreta-de-ratanaba-em-mt-nao-existe-entenda.ghtml

theintercept.com/2022/06/18/ratanaba-delirio-extrema-direita-desesperada/

fototerra.com.br/

www.dakila.com.br/

revistaenigmas.com.br/2022/05/amazonia-ancestral-tinha-cidades-com-piramides-e-estradas/

www.youtube.com/c/Al%C3%A9mdaNuvem

6 comentários em ““Ratanabá”: Geógrafo Emite Parecer Técnico Sobre Misteriosas Linhas Na Amazônia”

  1. A análise só sustenta os dados já conhecidos para AM, onde engenharia de terra e alta densidade demográfica já vem sendo demonstrada há uns 20 anos pelo menos
    Nada de novo temos intervenções antrópicas na paisagem! Isso não comprova existência de uma civilização de milhões de anos , só reforça que Brasil é terra indígena

  2. Essas linhas que apareceram na região de Apiacás no norte do Estado de Mato Grosso são formações meramente naturais causadas por chuvas e ventos nessa região amazônica, nada de cidade, ainda mais dessa idade de 350, 450 e até de 600 milhões de anos. Nem mesmo os dinossauros existiam nesse período.

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