Como Os Sumérios Influenciaram A Bíblia

Através de suas histórias, os sumérios deixaram uma marca profunda na Bíblia, o livro mais lido e vendido de todos os tempos.

No último século, muitos pesquisadores têm identificado uma intensa ligação entre a Suméria e a cultura hebraica antiga, principalmente no Antigo Testamento. O sumerólogo e historiador premiado Samuel Noah Kramer fez uma lista onde constam 15 evidências da influência dos sumérios na Bíblia em seu livro “The Sumerians: Their History, Culture and Character“, que vão muito além do fato de que Abrão nasceu em Ur – cidade da Suméria – sendo o primeiro hebreu, ou as similaridades muito conhecidas entre os mitos diluvianos desses povos.

Nascido em Kiev, em 1897, Kramer fez brilhante carreira nos EUA, nas universdades da Pensilvânia e Chicago, recebendo vários prêmios durante sua vida. Faleceu em 1990, na Filadélfia, deixando um legado insuperável de tábuas cuneiformes traduzidas e um vasto material escrito sobre a história da Suméria.

A CRIAÇÃO DO UNIVERSO

Assim como está descrito em Gênesis, os sumérios acreditavam em um mar primordial, que foi dividido no momento da criação do céu e da Terra. Na mitologia Suméria, Enlil dividiu as águas primordiais.

terra plana
Representação do formato do Universo, segundo o Antigo Testamento, crença originária da Mesopotâmia.

A CRIAÇÃO DO HOMEM

O homem, segundo os sumérios, foi feito do barro e impregnado do fôlego da vida. O propósito do homem era servir aos deuses, orar e fazer sacrifícios. Igualmente os dois motivos estão presentes na Bíblia.

Adão veio do barro.
Segundo os sumérios, o homem foi criado do barro e o fôlego da vida entrou em suas narinas.

TÉCNICA DE CRIAÇÃO

A criação, segundo escritores bíblicos e sumérios, foi realizada através da ordem divina de fazer, ou seja, através da palavra ou do verbo. Essa é uma característica divina que vem da religião da Mesopotâmia, já bastante conhecida na Suméria e posteriormente na Babilônia.

Deus e a criação pelo verbo
O verbo criador, sem o emprego de tecnologia ou outra ação que não seja “falar ou ordenar”.

O PARAÍSO

A ideia de um paraíso divino ou um jardim tem origem na Suméria. Lá, o paraíso se chamava Dilmun.

Existe um poema muito interessante sobre Enki e Nin-ti, onde o guloso “Senhor da Terra” comeu 8 plantas proibidas do Dilmun. Após o desvio, 8 pragas foram lançadas nos órgãos de Enki. Então foram criadas 8 divindades para consertar o deus que, doente, agonizava. Entre elas estava Nin-ti, responsável por curar a costela de Enki.

Nin-ti, literalmente significa “a dama da costela”. Contudo, segundo Kramer, Nin-ti também ficou conhecida na Mesopotâmia como “A dama que traz a vida”, porque a palavra Ti, em sumério, significa “costela” e também “trazer a vida”.

De acordo com Kramer, é por isso que os autores da Bíblia escolheram a costela de Adão para modelar Eva, ao invés de outra parte do corpo: porque Eva foi a primeira a mãe, “aquela que traz a vida”, e, da mesma forma, Adão deu a existência para Eva, através de sua Ti ou costela.

Enfim, também precisamos considerar a questão de que comer o fruto (planta) proibido traz efeitos adversos.

Adão e eva.
Adão e Eva: “os que trazem a vida”.

O DILÚVIO

Na tabuinha “Gênesis de Eridu”, uma das fontes para conhecer o mito diluviano sumério, existem diversos motivos que aparecem na Bíblia. Temos um Noé, chamado Ziusudra, que recebe a ordem divina de Enki para construir uma arca. Em outros escritos, como “A Lista de Reis Sumérios”, vê-se que antes do dilúvio diversas pessoas tinham idades descomunais.

Gênesis de Eridu
Gênesis de Eridu.

CAIM E ABEL

Diversos poemas sumérios tratam de casos parecidos com o de Caim e Abel, sendo um motivo preferido entre os escritores sumérios. Kramer acreditava que a causa de tamanho interesse nessas histórias estava na disputa por terra entre familiares no início da civilização, vivenciada comumente naquele período.

Caim e Abel lutando
Caim e Abel.

 A TORRE DE BABEL

A história da Torre de babel remete aos zigurates, pirâmides de degraus típicas da Suméria, que estavam em ruínas quando o livro Gênesis foi escrito. Isso pode ter causado grande impressão nos escritores bíblicos, que refletiram sobre como tais edificações imponentes ficaram naquele estado e como o seu povo fora desafortunado.

No épico “Enmerkar e o Senhor de Aratta”, há um paralelo importante com a Bíblia, porque lá está escrito que antes da queda existia um mundo organizado, onde todos falavam a mesma língua.

Zigurate Ur
O restaurado zigurate de Ur.

A TERRA E A SUA ORGANIZAÇÃO

A tábua Suméria “Enki e a Nova Ordem mundial” guarda semelhanças nas regras de lei e ordem com Deuteronômio 32:7-14 e o salmo 107.

Estátua Enki
Enki ou Ea.

O DEUS PESSOAL

Gênesis 31:53 fala do Deus de Abraão e Deus de Naor. Outras vezes é citado o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, que em um primeiro momento pode parecer algo natural. Contudo, isso é uma evidência importante de que os hebreus estavam familiarizados com a ideia de uma divindade pessoal. A crença na existência de um deus pessoal e também um anjo da guarda foi desenvolvida milênios antes na Suméria. Para esse deus, um sumério fazia orações especiais, súplicas e sacrifícios.

Anjo da guarda
A ideia de “anjo da guarda” está até hoje no imaginário popular, e advém da Suméria.

LEIS

As leis bíblicas demonstram inúmeras semelhanças com “O Código de Hamurabi”. Mas o próprio código é uma compilação acadiana de leis sumérias.

Lei suméria
Cone no Museu do Louvre que trata de reformas legais feitas em Lagash, Suméria, há pelo menos 25 séculos antes de Cristo.

 

ÉTICA E MORAL

De acordo com Kramer, os conceitos éticos e ideias morais desenvolvidas pelos sumérios eram essencialmente idênticas as dos hebreus. Contudo, os sumérios eram mais formais, distantes e metódicos, enquanto os hebreus demonstravam um fervor ético maior, principalmente nos livros proféticos.

soldados sumérios
Estela encontrada em Lagash demonstrando uma cena de guerra.

RETALIAÇÃO DIVINA EM FORMA DE CATÁSTROFE

A ira de Javé e a destruição de muitos povos por ele é tema frequente na Bíblia. Também havia na Suméria diversas histórias sobre deuses destruindo povoados.

Um desses documentos é a “A Maldição de Agade”, onde o rei sumério-acadiano Naram Sin destruiu o templo de Enlil em Nippur e trouxe terríveis consequências para o país, já que a divindade, furiosa, retaliou de forma descomedida.

Naram sin gigante
Naram-sin.

A PESTE

O mito sumério “Inanna e Shukalletuda: O Pecado Mortal do Jardineiro”, contém um motivo de peste que se assemelha, em certa medida, a peste bíblica do Êxodo. A divindade irritada enviou uma série de pragas contra uma terra inteira e seu povo porque foi desafiada.

cuneiforme
Fragmento da tábua Inanna e Shukalletuda na Universidade da Pensilvânia.

SOFRIMENTO E SUBMISSÃO

Existe um poema sumério que tem como tema central o sofrimento humano e a submissão à divindade, muito parecido com “O Livro de Jó”.

O enredo é o mesmo: um homem que tinha sido rico, sábio, justo e abençoado, com muitos amigos e parentes, é um dia oprimido, sem razão aparente, por doença, sofrimento, pobreza, traição e ódio.

O ensaio sumério com menos de 150 linhas não tem a mesma amplitude de “O Livro de Jó”, contudo, o centro da história é muito parecido, o que leva a crença de que a história evoluiu durante os milênios a partir dos escritos sumérios.

Jó
A provação de Jó.

MORTE E MUNDO INFERIOR

O Sheol bíblico, assim como Hades grego, tem sua origem no Kur sumério.

Como o Sheol hebraico, o Kur era a morada escura e terrível dos mortos. Em documentos literários sumérios , há vários outros paralelos interessantes com as ideias hebraicas relacionadas ao mundo inferior e sua descrição como “o lamentável lar de antigos reis e príncipes”, “a ressurreição das sombras dos mortos” e a prisão nele do deus Dumuzi, o bíblico Tammuz, por quem as mulheres de Jerusalém lamentavam fervorosamente até os dias do profeta Ezequiel.

Submundo sumério
Representação do submundo sumério, Kur.


3 thoughts on “Como Os Sumérios Influenciaram A Bíblia

  • 5 de março de 2021 em 11:56 pm
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    Excelente sintese da influencia Suméria na biblia!
    Parabens André!

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  • 21 de março de 2021 em 12:37 pm
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    Bom dia André essa teoria de que escritos sumérios influenciaram a bíblia tem muitas lacunas. A bíblia relata com profundidade muitas coisas como por exemplo a destruição de Sodoma e Gomorra, o que houve depois do diluvio, nomes de pessoas da época entre outras coisas. Uma coisa que eu queria contestar é a questão do Deus pessoal. Os sumérios eram politeístas já o povo de Abraão adorava apenas um Deus. Além do mais a religião mesopotâmica era abominada no Antigo Testamento. No mais parabenizo por esse trabalho fantástico que você faz te acompanho no YouTube e um forte abraço meu amigo!

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  • 3 de abril de 2021 em 2:42 pm
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    Parabéns pelo Trabalho! Uma coisa que o comentário acima esta errado! 1ª Abraão foi sumeriano e conhecia muito bem os Deuses sumérios e Israel nunca foi monoteísta como o copista do Texto Hebraico quer passar, antes eram politeístas e cananeus! a Bíblia não é referencia histórica , já que ela é apenas um livro de crenças e religião!

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