Expedição Paraíba

Por André de Pierre

Uma incrível viagem ao exuberante sertão do Estado da Paraíba, jornada que proporcionou uma sequência de descobertas intrigantes sobre a pré-história brasileira.

Rota da expedição executada de 20 a 23 de março de 2018. (Google Maps)

A PIRÂMIDE INDICA O CAMINHO

Em 20 de Março de 2018, o dia era fresco, um pouco nublado e a estrada muito boa até Paudalho. Conforme os quilômetros eram percorridos, a estrada ia piorando. Já próximo da divisa com a Paraíba, a rodovia ficou um tanto esburacada, e, neste trecho, Adonai passou em um buraco e o pneu furou, para nossa sorte, próximo a um posto de gasolina na entrada da cidade de Camutanga. Os deuses abençoavam nossa viagem, porque além deste pequeno acidente ser perto de um posto, lá havia um borracheiro muito competente, que resolveu o problema em dez minutos.

Quando entramos na Paraíba, avançamos pela BR por dentro de uma cidade com aparência colonial chamada Jurupiranga. Depois passamos por Itabaiana e Mogeiro, quando tivemos a impressionante visão de um morro em formato de pirâmide com, aproximadamente, 200 m de altura. Perplexo, pedi para o Adonai estacionar o carro para que eu fotografasse aquela colina totalmente anômala, uma formação realmente perfeita. No mesmo momento disse a ele que deveríamos estar próximos da Pedra do Ingá, pois esse tipo de “formação” indica lugares sagrados, e realmente acertei, a grande estrutura ficava a apenas 5 quilômetros dela. O mais impressionante é que antes da viagem estudei a fundo os sítios da Paraíba, com ênfase em Ingá, e não vi nenhum autor citando a impressionante elevação. Mais tarde, percebi que encontrar aquela “pirâmide” só foi possível porque pegamos uma rota alternativa. A estrada mais utilizada para se chegar a Pedra do Ingá é proveniente de Campina Grande, então, aquilo que parecia ter sido um grande erro – iniciar por Recife atravessando o interior de Pernambuco – acabou se transformando em uma grande vantagem.

Formação piramidal apenas 5 km da Pedra do Ingá. Mesmo que seja natural, sem dúvida seria considerada sagrada pelos nativos. (Foto André de Pierre)

PEDRA DO INGÁ

A Itacoatiara de Ingá pode ser dividida em quatro conjuntos de símbolos gravados em pedra. O primeiro está atrás da rocha maior, em diversas pedras menores espalhadas as margens do Rio Ingá, onde vemos petróglifos dos mais diversos tipos, inclusive com pinturas rupestres intrusas, ou seja, o relevo negativo da inscrição foi pintado por uma cultura posterior.

O segundo, terceiro e quarto conjuntos, estão na rocha principal, e podem ser nomeados de superior, frontal – em forma de painel – e inferior. Na parte superior, temos dois desenhos que chamam muito a atenção: o Sol e um espiral em formato de galáxia. O frontal é um verdadeiro painel natural para se desenvolver uma obra-prima, e lá há dezenas de caracteres linguísticos e matemáticos, perfeitamente esculpidos, com profundidade muito similar no relevo negativo. Na parte inferior, existe algo realmente surpreendente. Os artistas, projetistas e executores da inscrição, deixaram gravado no chão uma série de estrelas, que formam, possivelmente, a constelação de Órion.

Não há comparativo entre as inscrições do primeiro conjunto em relação aos outros. Claramente os petróglifos nas outras pedras são uma tentativa de cópia ou um “rascunho”. Os desenhos que vemos na rocha principal, que tem 15 m de extensão e 2,30 m de altura, é um tratado de inscrições antigas de todo o mundo. Como estudioso das culturas do Antigo Oriente, vi inscrições de origens mesopotâmicas, fenícias, hititas e pascuenses. Como exemplo, cito o símbolo de nanar/sin inscrito na pedra. Também existe mais de um caractere de origem hitita e algumas letras de origem fenícia. Se levarmos em consideração a antiguidade destes símbolos, chegaremos a conclusão que as inscrições foram feitas por volta de 2.000 a.C. ou até antes, o que é absolutamente fenomenal. Existem alguns estudiosos que calculam até seis mil anos atrás. Outro fato interessante é que a pedra está direcionada, em relação à luz do Sol, de uma forma que o desenho está sempre perfeitamente visível, diferente dos outros petróglifos que registrei no Brasil. Também existem desenhos circulares, que me pareceram caracteres matemáticos, e pude constatar que todas essas inscrições terminam em números pares. Seriam coordenadas?

Há muita fantasia sobre como entalharam as inscrições, existindo até uma teoria de que se utilizaram de laser de origem extraterrestre. O que pude presenciar no local é que todos os caracteres foram feitos por mãos humanas, muito provavelmente com instrumentos de pedra, o que, com tempo e paciência, fez surgir uma verdadeira obra-prima que, se a natureza permitir e a humanidade preservar, estará ao nosso alcance por mais milhares de anos.

Cito a natureza, porque a Itacoatiara é vítima sazonalmente das enchentes do Rio Ingá, e o que pude verificar é que muitos desenhos já se foram, principalmente na parte superior da pedra, o que torna muito difícil desvendarmos o verdadeiro significado do petróglifo, considerando que os símbolos superiores e frontais parecem se completarem A pedra está realmente muito desgastada nas extremidades e os símbolos mais preservados estão no centro do painel.

Para complementar, no local há mais mistérios, como uma pedra do sino – rocha oca que ao se bater nela faz um som como o de um sino – que foi deslocada para a margem do rio, na última enchente, e somente os funcionários do museu sabem dizer onde ela está. Suspeito que muito mais evidências foram arrastadas pelas águas do rio, considerando a ampla antiguidade da Pedra do Ingá.

Pedra do Ingá. (Foto André de Pierre)

ITATUBA FOI QUASE UM ERRO

A visita a Ingá foi realmente muito rápida, pois o sítio é pequeno e pesquisar o local não exige muito tempo. A ideia que tinha da região pela internet era totalmente equivocada, e, por isso, em nosso roteiro constava dois dias ali, o que se provou desnecessário naquele momento. Na noite do dia 20, no quarto do hotel, encaixei na pesquisa uma cidade, a trinta minutos de Ingá chamada Itatuba, pois havia notícias de que lá existia um sítio com inscrições curiosas, pouco documentadas, que alguns consideravam extraterrestre.

Às 9 h da manhã nos dirigimos para o município sem a menor ideia da localização das inscrições. Por causa da minha experiência de trabalho de campo, decidi me dirigir a prefeitura municipal. Lá fomos muito bem recebidos pelos servidores, que nos mostraram algumas imagens antigas de inscrições bastante interessantes. Também disseram que um funcionário da prefeitura, apelidado de Papagaio, conhecia a localização dos petróglifos e iria nos guiar. Quando perguntamos quanto tempo demoraríamos para chegar ao sítio, não obtivemos uma resposta precisa.

Saímos da prefeitura, quase às 11 h da manhã, em direção à área rural da cidade. Percorremos alguns quilômetros na estrada de terra e paramos em um sítio para pegar nosso verdadeiro guia, o Vilmar, um morador daquela fazenda que realmente conhecia o local das inscrições. A sensação térmica de calor nesse horário era quase insuportável, o ar condicionado mal dava conta, contudo seguimos adiante, até que não deu mais para seguir em frente de carro por conta de uma erosão no solo.

Deixamos o veículo ali mesmo, e seguimos a pé por três quilômetros no Sol escaldante e com pouquíssima água. Continuamos pela mata até chegar a um cenário parecidíssimo com o da Itacoatiara do Ingá, só que mais rústico e fresco, por estar entre as árvores. A conjuntura local é uma grande pedra, comumente chamada de lajedo na Paraíba, e um rio, que o guia, pessoa muito simples, não soube dizer o nome; olhando no mapa, depois, parece ser o Rio Paraibinha ou algum afluente. Percorremos uma boa parte das intermináveis pedras e encontramos pouquíssimos e inexpressivos petróglifos. Outras eram marcas naturais, que a imaginação do guia projetou como desenhos artificiais

Aquela parte da viagem parecia ter sido um grande erro, porque realmente foi cansativo chegar ao local. Contudo, como não desisto fácil, a tarde voltei a prefeitura e fui recompensado. Contei aos servidores que não encontrei aquilo que procurava e eles foram tentar localizar fotos para a pesquisa. Logo o secretário de Infraestrutura, Marlon Germano, apareceu e disse que tinha ótimas imagens do local, tiradas por Ricardo Lavor. Dentre estas fotos, estava aquela inscrição que, anteriormente, tinha chamado a minha atenção. Nela, vemos os mesmos caracteres que chamei de matemáticos da Pedra do Ingá, são círculos na pedra que terminam em número par. Junto a esses círculos temos desenhos de discos com orbes em seu interior, sendo a inscrição extremamente curiosa.

Inscrições em Itatuba. (Foto Ricardo Lavor)

CABACEIRAS: NÃO HÁ PALAVRAS PARA DESCREVER

Em Cabaceiras fomos recebidos pela diretora de Turismo, Mariana, e a guia Sandrely. O primeiro destino na cidade foi a maravilhosa Pedra da Pata na caatinga multicolorida. Cactos dos mais variados tipos permeiam aquela paisagem pitoresca, com tons de cinza, marrom e verde misturados. Em meio a este cenário surge um pequeno morro lindamente branco, com pedras imensas. As pedras são notoriamente naturais, mas a paisagem que faz você enxergar centenas de quilômetros a frente, no topo de um vale belíssimo, fizeram-me pensar que aquele lugar pode sim ter sido um centro cerimonial antigo ou de defesa para os nativos locais. No entorno existem mais formações diferentes como essa, valendo muito a pena a visita. Não há dúvidas de que no mundo antigo este local foi habitado por indígenas.

Mais tarde, nos dirigimos a um local que palavras não são capazes de descrever fielmente, a Saca de Lã. Também chamada de Machu Picchu brasileira, em referência ao grande monumento andino, é uma grande muralha erguida na caatinga da região do Cariri. Com pedras pesando mais de duzentas toneladas, aparentemente cortadas, polidas e levantadas umas sobre as outras, nenhum adjetivo existente pode definir a impressão que eu tive ao olhar aquele imenso monumento megalítico. Quem os teria construído? Em minha opinião, pelo estado de deterioração, é algo de tempos imemoriais, talvez, de uma civilização antediluviana, de mais de 12 mil anos. Atrás da muralha, vemos pedras titânicas e pinturas rupestres intrusas, feitas sobre petróglifos mais antigos. Por coincidência ou não, temos o mesmo cenário de Ingá, com lajedos e água, pois a estrutura se encontra as margens do rio Direito. Contudo, como se não tivéssemos o sentido da visão, existem teorias que afirmam que aquela formação é natural. Ora, se é natural, mostre-nos outra composição parecida e nos explique porque ao invés de parecer uma montanha, a elevação tem a aparência singular de uma muralha! Infelizmente para os geólogos, não há nada parecido. Lamentável que esse tipo de alegação absurda ganhe defensores, atrapalhando os estudos daquele sítio arqueológico, tesouro nacional!

Para finalizar nosso dia admirável em Cabaceiras, fomos ao Lajedo Salambaia, uma rocha de seis quilômetros de extensão, onde crescem cactos em suas entranhas. Ao subir naquele lugar excêntrico, fomos a uma pequena toca onde há inscrições rupestres.

Saca de Lã ou Machu Picchu brasileira. André de Pierre e Sandrely ao lado das pedras. (Foto Mariana Castro)
Algumas pedras na Saca de Lã. (Foto André de Pierre)

QUEIMADAS: PEDRA CALENDÁRIO

O destino do dia seguinte era a cidade de Queimadas, famosa pela gigante Pedra do Touro, as margens da PB-104. Na cidade, fomos recebidos pela Ane, Angélica e Rafael, servidores da prefeitura, que iriam nos guiar até o conjunto de grandes megálitos e os petróglifos na área rural.

Na subida, muito íngreme da Serra Central, já avistamos o belíssimo conjunto de rochas titânicas; contudo é desagradável observar que o local está sujeito a muitas depredações. Esquecendo este lado que nos entristece, foi totalmente surpreendente presenciar que a grande estrela daquele conjunto de megálitos não era a Pedra do Touro, mas sim uma menos famosa, a chamada Pedra da Coxinha. Com um nome nada glamoroso, essa rocha é uma verdadeira pedra calendário, ou seja, ela foi colocada no local propositadamente para se prever eventos astronômicos. Alinhada perfeitamente leste/oeste, embaixo da rocha há uma fresta feita por mãos humanas e o famoso encaixe de três pontos, em forma de triângulo, um símbolo deixado pelos antigos para que pudéssemos determinar sua autenticidade. A Pedra do Touro também é magnífica, e, provavelmente, todo aquele conjunto megalítico foi formatado para esse calendário.

A seguir nos dirigimos ao Sítio dos Macacos para ver as Itacoatiaras da cidade. Não houve surpresas, pois verificamos a mesma paisagem de rio, lajedo e um painel com inscrições rupestres, as mais interessantes em forma de círculos.

A Pedra da Coxinha. (Foto André de Pierre)

UM TEMPLO SAGRADO DO MUNDO ANTIGO

O primeiro ponto do dia 23 de março seria na cidade de Boqueirão que não constava na programação inicial e não tínhamos qualquer expectativa sobre ele, um lugar chamado Lajedo Marinho que vimos em um folder no hotel. O dono do estabelecimento havia nos contado que por lá existiam inscrições rupestres.

Fomos para a área rural do município, adentrando vinte quilômetros por uma longa estrada de terra. Chegamos a uma vila onde estava a entrada para o Lajedo Marinho, protegida por um portão e encontramos um guia muito atento. Logo na entrada do sítio vimos um grande megálito de 10 m de altura polido e fixado no solo. Subindo mais um pouco avistamos um grande lajedo, e, sobre ele, variadas rochas dispostas em forma circular, algumas menores formatavam uma cruz e sobre uma rachadura, no lajedo, três pedras pequenas perfeitamente enfileiradas. Aquele local só pode ter sido configurado por mãos humanas, provavelmente para rituais no mundo antigo. O guia nos contou que por lá houvera uma escavação feita por arqueólogos da UFPE e encontraram ossos humanos e alguns artefatos.

Dá área rural do Boqueirão partimos para nossa última aventura em direção a cidade do Congo. Seguimos uma viagem que durou mais de duas horas, pois o trecho de São Domingos do Cariri estava com reformas na rodovia, e tivemos que desviar por uma estrada de terra por mais uns trinta minutos. Chegamos cansados ao destino e por lá fomos recepcionados pelo Alison, entusiasta das belezas regionais. O nosso novo amigo nos levou a uma pequena gruta com belíssimas pinturas rupestres, algumas delas feitas sobre petróglifos. Esses desenhos representam discos com cruzes, astros como o Sol e a Lua, tabelas e os já conhecidos caracteres matemáticos talhados na rocha em forma circular. Saindo da caverna, andamos por aproximadamente 200 m na caatinga repleta de cactos e chegamos a um salão muito parecido com templo megalítico do Lajedo Marinho, o que foi realmente gratificante para o final desta incrível expedição que foi um enorme sucesso.

Imenso monólito no Lajedo Marinho. (Foto Adonai Zanferrari)
Templo megalítico em Lajedo Marinho. (Foto André de Pierre)
Templo megalítico em Lajedo Marinho. (Foto André de Pierre)
Pintura Rupestre na cidade do Congo. (Foto André de Pierre

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